Quintal bio Margarida Silva & Jorge Ferreira

Glifosato - O herbicida mais usado em Portugal é cancerígeno

As implicações desta avaliação são profundas. Porque as decisões da IARC não são vinculativas, cabe agora aos governos e outras organizações internacionais tomar as medidas adequadas para proteger as populações. Considerando que este ano o glifosato está em processo de reavaliação na União Europeia, impõe-se a coragem de proibir o seu uso antes que as consequências se agravem.

A situação em Portugal é particularmente grave. Em 2012 aplicaram-se no país, para fins agrícolas, mais de 1400 toneladas de glifosato e esse consumo tem vindo a aumentar: entre 2002 e 2012 o uso de glifosato na agricultura mais do que duplicou.
Para isso muito tem contribuído o aumento da área de olival intensivo e superintensivo.

 

Figura 1 – Olival intensivo tratado com herbicida glifosato em todo o terreno, ao lado duma seara de trigo (Beja, Março 2014)

O glifosato, comercializado em Portugal em diferentes formulações por empresas como a Monsanto, Dow, Bayer e Syngenta, entre outras, também é vendido livremente para uso doméstico em hipermercados, hortos e outras lojas. Lamentavelmente é também usado com abundância por quase todas as autarquias para limpeza de arruamentos (uma das vias importantes de exposição das populações, segundo a IARC). A Plataforma Transgénicos Fora já em 2014 desafiou as autarquias a aderir à iniciativa "Autarquias Sem Glifosato" mas até agora apenas oito freguesias e quatro câmaras assumiram formalmente esse compromisso. Neste momento as restantes terão muita dificuldade em justificar a sua inação.

O glifosato está até autorizado para aplicação em linhas de água para matar infestantes, muito embora o próprio fabricante reconheça a toxicidade para os organismos aquáticos e o impacto negativo de longo prazo no ambiente aquático, agravado pela sua alta solubilidade na água e por demorar mais de 2 meses a degradar-se no solo. Apesar disso infelizmente em Portugal não se fazem análises ao glifosato em águas superficiais ou de consumo, pelo que a extensão deste impacto não é conhecida no nosso país, ao contrário do que acontece noutros países. Em França, por exemplo, já em 2003 e 2004, mais de metade das análises a águas superficiais em anos sucessivos revelou a presença de glifosato e/ou do seu metabolito AMPA, o que levou o governo francês a reduzir as doses máximas autorizadas na agricultura.

Um dos impactos concretamente identificados pela IARC foi entre exposição ao glifosato e um cancro do sangue: o Linfoma não Hodgkin (LNH).

Muito embora não se possam atribuir todos os casos deste cancro a uma única substância, é relevante que Portugal apresente, dos 41 países europeus para os quais a IARC sistematiza informação, uma taxa de mortalidade claramente superior à média da União Europeia: é o sétimo país europeu onde mais se morre de LNH. Além disso, a nível nacional o LNH é o 9º cancro mais frequente (1700 novos casos por ano), de 24 avaliados.

Publicado ontem mesmo pela Sociedade Americana de Microbiologia, um estudo científico sobre o glifosato e outros herbicidas demonstrou que estes químicos têm um outro lado negativo até agora ignorado: induzem resistência a antibióticos nas bactérias com que entram em contacto. Do ponto de vista médico, e considerando o enorme desafio de saúde pública que a perda de eficácia dos antibióticos está a representar, não podem ter lugar numa sociedade desenvolvida quaisquer químicos que tornam mais fortes os microrganismos patogénicos.

E quanto aos transgénicos?

Mais de 80% dasplantas transgénicas produzidas no mundo (sobretudo soja, mas também milho) foram geneticamente modificadas precisamente para receber aplicações de glifosato. Este herbicida aplicado sobre as plantas sem modificação genética provoca em geral a sua morte, salvo raras exceções de ervas que já ganharam resistência (fig. 2).




Figura 2 – Planta de corriola (Convolvus arvensis) resistente ao glifosato, tal como acontece à soja e ao milho modificados geneticamente para ganharem essa resistência (Beja, Março 2014)

Isto significa um acréscimo adicional de resíduos deste herbicida na alimentação, aumento esse que se deve exclusivamente ao uso de OGM. Considerando que os primeiros transgénicos foram autorizados na União Europeia em 1996, não será coincidência que em 1999 a UE tenha aumentado em 200 vezes a sua tolerência aos resíduos de glifosato na alimentação (passaram de 0.1 para 20 mg/kg no caso da soja).


Fica assim evidente que os transgénicos pioram a exposição das populações a substâncias perigosas.

O glifosato apresenta agora uma única dúvida relevante: terão os governos, em particular o governo português, coragem para cumprir o seu dever de proteção da saúde da população? Não é fácil fazer frente a multinacionais com tanto poder como as dos agroquímicos e as das sementes transgénicas - consoante o destino legal que o glifosato vier a receber no seu processo europeu de reavaliação, assim saberemos quem realmente governa os destinos da sociedade.


Notícia publicada a 20 de Março pela www.thelancet.com
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