Aprender sempre! José A. Damas

O dever de ensinar

Imperfeitos. Inacabados. Humanos.

Nascemos nus, imperfeitos, inacabados. Em construção. Uns com os outros. Num sítio, num povo, numa cultura, também ela imperfeita, inacabada. Em construção.

Num mundo que nos é anterior, complexo, que ensinamos e aprendemos a fazer e nele viver com os conhecimentos, saberes, princípios e valores que ensinamos e aprendemos na língua-linguagem em que nos fazemos humanos. Uns com os outros.

São três as razões fundamentais para ensinar e aprender:

1. Nascemos imperfeitos, inacabados mas com capacidade para aprender a ser humano.

É verdade que "o filho de peixe sabe nadar”. Mas o filho de homem sabe pensar? falar? ser? Não. O nosso inacabamento impede-nos de atingirmos a fala, o pensar e o ser humanos sozinhos, isolados. Sem o contacto com outros humanos. Precisamos, pois, de aprender a ser humano. Se, como os gregos e Heidegger afirmam, "o homem é aquele que fala”, apenas nos fazemos humanos falando uns com os outros, mediante a língua-linguagem que usarmos.

2. Precisamos de aprender os conhecimentos, saberes, princípios e valores que nos permitam viver uns com os outros.

Precisamos de aprender a ser humano. Precisamos de aprender os conhecimentos, os saberes e os princípios e valores que nos fazem humanos. Quais? Aqueles que as gerações mais velhas reconhecem fundamentais para a construção do melhor mundo possível. As gerações mais novas aprendem, apropriam-se, inovam e transmitem-ensinam à geração mais nova os conhecimentos, saberes, princípios e valores fundamentais para a construção do melhor mundo possível. De geração em geração. Como um processo identitário. Dinâmico. Uns com os outros, Diferentes, diversos, complexos. Como a realidade, o mundo, a fala.

3. A realidade e o mundo, bem como a língua e a linguagem, que nos permitem ser, pensar, dizer e fazer, são complexos e, como tal, opacos na sua complexidade e polissemia.

Se todos fôssemos iguais e a realidade-mundo e a língua-linguagem que a diz transparentes na sua simplicidade e univocidade, saberíamos todos o mesmo. Todos saberíamos tudo. Sempre. O ensinar e o aprender perderiam qualquer sentido. Nasceríamos ensinados como os peixes.

Ensinamos e aprendemos porque a realidade-mundo é complexa e a opacidade que dessa complexidade resulta exige uma permanente busca de sentido e a sua transmissão-ensino na língua-linguagem que melhor se lhe adeque. A matemática e a digital transparente na sua univocidade, a audiovisual transparente na sua imediatez, a natural opaca na sua polissemia, no excesso de sentido que escapa a toda a apropriação interpretativa. O ouvinte nunca ouve e o leitor nunca lê o que o orador diz ou o escritor escreve, ouve ou lê o que é capaz de ler ou ouvir, mediante as circunstâncias (o que sabe e a sua competência linguística) em que lê ou ouve.

A dificuldade nascida desta multiplicidade de sentidos que habitam plurivocidade, no dizer de Ricoeur, da língua-linguagem natural, na qual e pela qual nos fazemos uns com os outros, exige que os que mais sabem e são linguisticamente mais competentes ensinem os menos capazes. Os ajudem a encontrar, entre a multiplicidade de caminhos possíveis, o seu próprio caminho. O seu modo próprio de ser, de pensar, de dizer e de fazer. O seu modo próprio de ser livre. Homem, portanto.

Concluímos com George Steiner:
Ensinar com seriedade é lidar no que existe de mais vital num ser humano. É procurar acesso ao âmago da integridade de uma criança ou de um adulto. Um Mestre invade e pode devastar de modo a purificar e a reconstruir. O mau ensino, a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objectivos puramente utilitários, é ruinosa. Arranca a esperança pela raiz. O mau ensino é, quase literalmente, criminoso e, metaforicamente, um pecado”1

EsmeraldAzul – para uma vida saudável, consciente e sustentável.


Bibliografia
1. Steiner, G., 2005, As lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva.

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