Outro olhar... Cristina Sales

Saiba as diferenças: intolerância, alergia e sensibilidade alimentar

As análises laboratoriais de intolerância, de alergia e de sensibilidade alimentar são diferentes, têm significados laboratoriais e implicações clínicas distintas que importa conhecer e compreender.

Se por um lado algumas destas designações têm sido usadas sem um consenso de nomenclatura uniformemente estabelecido, por outro, não foi ainda alcançada uma unanimidade de opinião entre os vários especialistas de clínica laboratorial, a propósito destes testes.

Mas o caminho parece apontar para que seja consensual a classificação em reações em que o sistema imunitário não está envolvido e reações mediadas pelo sistema imunitário, sendo estas de dois tipos, imediatas e retardadas.

Seguimos neste texto a proposta recentemente feita pelo The Institute for Funtional Medicine


Reação a alimentos não mediada pelo sistema imunitário:

Intolerância a alimentos

Classicamente define-se como intolerância alimentar a ausência ou deficiência de uma enzima digestiva que torna difícil ou impossível a digestão de um alimento ou grupo de alimentos.
A mais comum intolerância alimentar é a intolerância à lactose. Neste caso verifica-se a ausência de lactase, a enzima responsável pela digestão do açúcar do leite, a lactose. Para poder fazer bem a digestão do leite a pessoa intolerante à lactose tem necessidade de ingerir um suplemento de lactase, a enzima gástrica que não é capaz de produzir por sis mesma.
Menos comum é a intolerância à frutose, o açúcar da fruta.

O diagnóstico deste tipo de intolerância alimentar é essencialmente clínico e não é habitualmente feita qualquer análise clínica laboratorial.


Reação a alimentos mediadas pelo sistema imunitário:

Neste caso incluem-se as reações a alimentos em que o sistema imunitário reage a um alimento através da produção de uma proteína – uma imunoglobulina – especificamente relacionada com esse alimento. 
Estas imunoglobulinas são detetadas nas análises laboratoriais.

Alergia alimentar

A alergia alimentar provoca, habitualmente, reações clínicas exuberantes e bem identificadas alguns minutos ou poucas horas após a ingestão do alimento em causa. 
Trata-se, portanto, de uma reação quase imediata.
São exemplos: uma erupção na pele, tosse, irritação nasal ou ocular, asma ou edema da laringe.

Na alergia alimentar o sistema imunitário produz imunoglobulinas de um tipo designado por IgE.
A análise laboratorial que procura confirmar o diagnóstico de alergia alimentar a um determinado alimento é exatamente a pesquisa de IgE específica desse alimento.
Se for positiva, estamos perante alergia a esse alimento.


Sensibilidade alimentar

A sensibilidade alimentar provoca, habitualmente, reações clínicas algumas horas ou dois a três dias após a ingestão do alimento em causa. 
Trata-se portanto de uma reação retardada.
As reações clínicas não são exuberantes e frequentemente não são relacionadas com a ingestão dos alimentos.
São exemplos: a síndrome de cólon irritável e o agravamento das manifestações inflamatórias de várias doenças crónicas.

Na sensibilidade alimentar o sistema imunitário produz imunoglobulinas de um tipo designado por IgG.

A análise laboratorial que procura confirmar o diagnóstico de sensibilidade alimentar a um determinado alimento é exactamente a pesquisa de IgG específica desse alimento.
Se for positiva, estamos perante sensibilidade a esse alimento.


Sensibilidade alimentar, sensitividade alimentar e intolerância alimentar – dúvidas e alguma confusão

As análises laboratoriais de pesquisa de IgG alimentares têm sido também designados por "Testes de Intolerância Alimentar”, o que tem criado alguma confusão.
Outros autores denominam por sensitividade alimentar a reação alimentar mediada por IgG.

A pesquisa de IgG alimentares, e mesmo outras IgA e IgM, e a sua correlação com quadros clínicos crónicos é recente na prática médica e levanta ainda algumas dúvidas. Não está ainda completamente compreendido o mecanismo fisiopatológico entre esta reação retardada a alimentos e alguns aspetos de múltiplos quadros clínicos crónicos.

Mas já há evidência clínica de que a eliminação dos alimentos identificados por IgG da dieta de doentes com síndrome de cólon irritável e dificuldades digestivas contribui para melhorias significativas o que também se verificou no caso de outras patologias sistémicas.
Estudos mais recentes colocam a hipótese de que reações alimentares mediadas por imunoglobulinas poderão estar presentes em muitas doenças caracterizadas por processos inflamatórios crónicos, como doenças autoimunes e degenerativas

Mas queremos deixar claro: o estudo das reações imunitárias aos alimentos – alergia e sensibilidade – que podem ser relacionadas com quadros clínicos são, forçosamente, analises sanguíneas laboratoriais.
EsmeraldAzul - para uma vida saudável, consciente e sustentável.

Este texto foi publicado em 2014-05-30 na Quinzena Eu & Não Eu e Glúten & Glúten free


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